Letras-poesia

Sultão

Publicado por: Douglas Velloso em: Outubro 4, 2009

 

Era uma manhã de domingo, resolvi ir com o Sultão, meu velho cachorro de olhar triste, comer amoras. A árvore frutífera ficava próxima a um riacho de águas claras. Sol escondido, vento leve. Eu jogava pro Sultão as amoras mais maduras; sentado no último tronco da árvore. Eu me deliciava com as mais vermelhas. Passei a manhã ali, deitado nas pedras lisas, tocando canções em um velho violão. Lavei os pés no riacho, enquanto Sultão nadava. Meu velho cão ainda era esperto e confiava em mim. Passávamos dias assim, juntos. Ele parecia entender as minhas palavras, apesar de sempre manter um olhar triste. Lembro desse dia como hoje. Quando voltamos, minha mãe gritou com Sultão, pois suas patas estavam sujas, impedindo que ele chegasse até a sua água em uma vasilha amarelada. Pacientemente, o cão sentou e esperou que eu levasse até ele a água fresca. Quando levantou o olhar, agradeceu-me com o silêncio. A partir desse dia, percebi que a paciência é dom pra poucos e que o silêncio, pra alguns, deveria ser fundamental.

 

 

Douglas Velloso, Setembro de 2008.

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Varandas

Publicado por: Douglas Velloso em: Outubro 4, 2009

 

Ele pacientemente arrastou uma cadeira para a varanda daquele último andar. Tomou do bolso de uma camisa estampada de cinza um maço de cigarros; e com as mãos trêmulas acendeu um deles sem maiores problemas. Reclamou de jornal que mudou de horário, tragou e fechou os olhos esverdeados pelo tempo. Disse que antes as coisas não eram medidas pelo colarinho do seu terno. Perguntou-me se eu queria acompanhá-lo, com uma generosidade estranha, voltando a mim o maço de cigarros. Agradeci e disse a ele que não era de meu agrado. Chamou a mulher pelo nome e pediu um café novo e forte. Tossiu impaciente, levando a mão aos ralos cabelos. Logo depois disse que eu não devia perder meu tempo com a saúde dos outros. Cantarolou uma música enquanto soltava no chão a bituca ainda acesa. Perguntou-me porque eu usava uma camisa rosa de botões e não uma outra qualquer. Nada respondi e ele novamente tossiu. Minha última lembrança é de sua justificativa; que dizia que se eu não começasse a fumar, iria vestir camisas rosas pelo resto da vida. Recolhi, ontem, sua cadeira vazia no meio a uma tempestade de vento, que era tão rápida quanto a sua sinceridade.

 Douglas Velloso, Setembro de 2008.

Grades

Publicado por: Douglas Velloso em: Outubro 4, 2009

Ele era calado, quase não se notava a sua presença. Abrigava na sombra das filhas e dos netos a sua imensa felicidade. Chamava a atenção poucas vezes, gostava de cães e de limpeza. Tinha um bom corpo e uma mulher fiel, que lhe deu a força que precisava para poder descansar. Não era jovem, e nem velho demais para ter certeza da hora. Era um homem que, sem pretensão de ser mais do que era, criou uma família. Criou também em sua casa grande o hábito de manter fechadas as portas, deixando aberta às grades do jardim. E quando abria a porta da frente, era Natal. Amigos antigos se misturavam a netos cada dia mais velhos. E fortes. Tão fortes que mal percebem a fraqueza que é estar só. Mas quando tiverem eles seus filhos vão perceber o momento certo de se calar. E o bisavô verá de cima que as portas sempr estarão abertas a quem conseguir enxergar além do jardim.

 

Douglas Velloso, Novembro de 2008.

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Café

Publicado por: Douglas Velloso em: Outubro 4, 2009

na mesa da frente sentou um cara
bonito – é,
bonito
ficou olhando para mim e
sorriu algumas vezes
(meu olhar cruzou o dele)

mas eu não
consegui me concentrar nos olhos
- nem no sorriso.

Andressa R.

Tentei chamar atenção, vestindo um sorriso inexistente. Fiquei olhando na direção dela, esperando alguma reação. Como sempre, batia com as pontas dos dedos na mesa, impaciente. Sabia que tudo aquilo era vazio, e que eu nunca teria uma resposta. E as respostas que espero são dosadas em gotas, gotas em cores pálidas. Cruzava olhares, sem perceber sinais fechados ou placas em vermelho. Abandonado, procurava em outros olhares aquele cinzento que me disse um não. Fugia, fingindo tomar um café em cada mesa da cidade. Tentando cruzar olhares, doar sorrisos nulos a quem merecia muito mais do que a divisão de um café, coberto de desilusão. Um rei, que no jogo desce as cartas em blefes falsos e perdedores.

Douglas Velloso, Novembro de 2008.

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Carnaval

Publicado por: Douglas Velloso em: Outubro 4, 2009

Quando se percebe preso a um carnaval, as máscaras permanecem além dos dias marcados no calendário. Com ela não foi diferente. Enganou a todos com a pose de uma dama e palavras de respeito aos afins. Cega, machucou a todos com o vazio no olhar e a indiferença a palavras de quem a calou em momentos mudos. Resolveu mudar e fez dessa mudança um poço de lama, moldando máscaras infantis e irresponsáveis. Mostrou-se a homens como se isso lhe rendesse fama. Dançava entre fumaças de cigarros baratos e cheiros desconhecidos. Dormia em esquinas e camas sem proteção. Crescer era apenas um pretérito imperfeito, e não uma ação. Fez do Carnaval uma vida e da vida uma incerteza. E quando tudo isso não passar de ilusão, pulará de colo em colo, tentando fazer do muito a qualidade que não terá nunca mais.

 

Douglas Velloso, Março de 2009.

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Chuva

Publicado por: Douglas Velloso em: Outubro 4, 2009

 

 

Poucos hoje se investem na chuva em busca das coisas simples. Aquele homem era um deles, pois o tempo não o impedia de demonstrar com todas as letras o que vale a pena. Aquele homem se vestia bucolicamente e não chamava atenção pela aparência. Suas cores eram poucas, escondidas em um relógio ansioso no pulso esquerdo. Aquele homem carregava na mão direita um guarda chuvas de um verde quase preto, imperceptível a quem não percebe tons. Aquele homem parecia não perceber a intensidade de reclamações sobre a chuva, o trânsito e o tempo. Bastava-lhe esperar por um prêmio, que parecia também descer das nuvens, como descem as gotas de água para quem delas precisa para sobreviver. Aquele homem somente mudou seu olhar quando percebeu que ela estava para chegar, com seu uniforme impecável, em uma lotação recheada de lugar comum. Aquele homem caminhou até ela, passou os braços delicadamente sobre seus ombros e a levou para um lar, onde as cores não saiam somente de um relógio, e sim das palavras e dos gestos de afeto que não precisavam ser negociados conforme o tempo.

 

Douglas Velloso, Março de 2009.

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